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Evolução dá mais poder ao consumidor (Expresso)

Antes da entrega dos prémios discutiu-se o que está a transformar o sector. O futuro será ainda mais disruptivo do que o presente.

Na noite de 14 para 15 de outubro deste ano, quando, mais uma vez, deflagraram violentos incêndios na zona Norte e Centro do país, a REN (Redes Energéticas Nacionais) registou, nos centros de despacho de eletricidade e gás natural, mais de 100 ocorrências, neste caso, “situações em que as linhas ou as infraestruturas da REN tiveram interferências negativas”, contou o diretor de operações (COO) da empresa, João Conceição. Dessas 100, continuou, duas iriam culminar no corte do consumo local na subestação da Feira (Santa Maria da Feira). Mas em menos de dois minutos os operadores que estavam no despacho encontraram, remotamente, “soluções alternativas de forma a evitar que houvesse esse corte”, ou seja, direcionaram a eletricidade para outra linha dentro da imensa rede que a REN gere hoje. Tal como acontece quando, por exemplo, uma estrada é fechada e se desvia o trânsito para outra via.

Segundo João Conceição, que falava no debate que antecedeu a entrega do Prémio REN, isto só foi possível porque grande parte da rede elétrica nacional está já equipada com sensores que enviam informação em tempo real para uma espécie de grande computador (o despacho) que depois dá sinais de alerta quando existem interrupções ou danos. As tecnologias de informação e a digitalização dos sistemas, processos e infraestruturas não são, portanto, uma novidade na REN. São usadas na monitorização da rede em tempo real, na prevenção de ocorrências — o que elimina a necessidade de ter equipamentos duplicados em todas as subestações —, e ainda em simulações quando se estão a planear Energia Antes da entrega dos prémios discutiu- -se o que está a transformar o sector. O futuro será ainda mais disruptivo do que o presente Evolução dá mais poder ao consumidor novos investimentos, evitando gastos desnecessários que seriam pagos pelo consumidor na conta mensal.

Isto já é o presente. A EDP Distribuição também já o faz na gestão da sua rede e muitas outras empresas de outros sectores já aplicam, igualmente, as mesmas tecnologias aos seus negócios. O futuro da energia, e principalmente, da eletricidade, será muito mais digital e tecnológico e, por isso, muito mais disruptivo do que o que foi até agora.

O consumidor é quem manda

“Há uma mudança de paradigma em curso. Os problemas ambientais levaram-nos a entender que é preciso eletrificar mais a sociedade e a economia e as fontes que abastecem vão passar a ser cada vez mais renováveis, mas as renováveis não só estão dispersas geograficamente como variam no tempo [não estão concentradas como a produção numa grande central a carvão, gás natural ou nuclear e nem sempre há vento ou sol com a mesma intensidade]. Caminhamos para uma dispersão da produção em que os consumidores também são produtores e, por isso, o sistema elétrico tem de se preparar para ter grande flexibilidade, quer do lado da geração quer do lado da procura. Porque antes a oferta seguia a procura, mas agora parte da procura tem de se adaptar à variação da oferta. E a digitalização é a grande forma de concretizar esta mudança”, disse o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e diretor do INESC Tec, João Peças Lopes.

De acordo com este especialista, também ele um dos oradores da conferência, a digitalização já permite ter, entre outras inovações, as redes inteligentes que a REN mencionou, ou que os consumidores instalem painéis solares em casa e produzam a sua própria eletricidade sem ter de recorrer a um operador, como a EDP, por exemplo. Permite também ter equipamentos que ajudam a gerir os consumos domésticos e que, entre outras características, dão para saber quanto se está a gastar por hora.

Mas a digitalização caminha para que seja a própria rede a informar aquilo de que precisa, tal como os carros avisam quando têm de ir à revisão, referiu João Conceição. E permitirá também que esses sistemas de gestão de consumos tenham inteligência artificial suficiente para fazerem mais do que informar o consumidor e possam mesmo pôr a funcionar alguns eletrodomésticos quando a energia que está a ser produzida é mais barata, por exemplo, quando há mais vento e as eólicas estão a produzir. Segundo Peças Lopes, esta plataforma foi desenvolvida no INESC e está agora a ser testada em 25 casas na Alemanha e, a curto prazo, poderá está à venda por €100 num supermercado, disse ao Expresso. Basta encontrar “um tomador da tecnologia que desenvolvemos para o transformar em produto e o colocar no mercado”, acrescentou. Este sistema poderá ainda informar qual o preço a que está a energia a cada hora, uma informação que até agora só é conhecida dos operadores das redes. Ora, isto dá muito mais poder ao consumidor dentro do sistema elétrico. Aliás, para o professor Peças Lopes não há dúvidas: “Antes, o consumidor só carregava no interruptor para ligar a luz, mas no futuro da energia, o consumidor tem um poder cada vez maior, porque pode produzir eletricidade e gerir os seus consumos.” E “nos pró- ximos cinco a dez anos”, quando a armazenagem de energia se tornar uma realidade, terá ainda muito mais poder.

Armazenagem: o Santo Graal

A possibilidade de guardar energia em baterias para usar mais tarde é hoje uma espécie de Santo Graal do sector, para o qual todos estão a trabalhar. “Hoje há o grande armazenamento nas hídricas, mas em breve existirão baterias que se poderão usar em casa, iguais às que se usam nos carros elétricos. Ainda estão em testes, se fossem comercializadas agora custariam 250 euros por kwh, mas daqui a 10 anos estarão a 100 euros por kwh, e quando isso acontecer, então a disrupção será ainda maior”, disse Peças Lopes. Para este especialista, quando o consumidor tiver o poder de produzir, gerir consumos e ainda armazenar energia será preciso “mudar a regulação, mudar modelos de negócio e modelos de mercado”.

Além disso, vai ser preciso continuar a adaptar a rede, disse João Conceição. Esse processo começou com o aparecimento das renováveis que não tinham horário para começar a produzir, depois tornou-se mais necessário com a possibilidade de os consumidores passarem a poder produzir o que consomem e até injetar na rede nacional o excesso dessa produção. Agora vai agravar-se ainda mais quando se puder guardar a energia e injetá-la na rede quando o consumidor quiser. Tudo isto obriga a uma gestão e otimização maior para evitar que haja congestionamentos e, consequentemente, falhas no abastecimento. “Que isto possa tender para zero é aspiracional, mas hoje a rede quase não falha, é impensável falhar”, rematou o COO da REN.

Estudo para interligação a Marrocos pronto no final deste mês

O estudo que está a ser desenvolvido para definir a construção de um cabo elétrico submarino para ligar Portugal a Marrocos deverá ficar concluído no final de novembro. A data foi avançada pelo secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, durante a sua intervenção na conferência que antecedeu a entrega do Prémio REN. Para o governante, este projeto — que tem como principal objetivo ajudar Portugal a escoar o excesso de energia renovável que já se produz no país — é um exemplo evidente da inovação que está a ser feita pelo Governo. Inovação essa que, de acordo com Jorge Seguro Sanches, é tão importante como a preocupação em baixar a fatura que os portugueses pagam no final do mês. “Na política de energia do Governo tem havido uma preocupação muito grande com o funcionamento do sistema elétrico e do gás e com a questão dos preços e da transparência, mas não chega. Há necessidade de trabalhar ao nível da inovação”, disse, destacando ainda outros projetos inovadores em que o Governo está envolvido. É o caso da ligação que está também agora a ser estudada para se construir um projeto renovável em alto mar em Portugal, no qual a REN está a trabalhar. Ou ainda a interligação que está em estudo na União Europeia entre a Península Ibérica e França, através do Golfo da Biscaia. De acordo com Jorge Seguro Sanches, apesar deste projeto ser fora do país, pode muito bem vir ter a intervenção de “empresas, técnicos, investigadores e universidades portuguesas”, fazendo com que também Portugal tenha um papel significativo naquilo que é a “criação de um verdadeiro mercado europeu de energia”.

Capacidade para testar e exportar inovações

O futuro da energia começa na investigação, mas depois é preciso que as empresas a transformem em produto

Quando se fala em disrupção na energia fala-se, inevitavelmente, em digitalização, tecnologia e inovação, mas antes do produto final existe todo um processo para trás que começa na investigação e nos testes em situações reais e Portugal parece estar bem posicionado nesse sentido não só para o que se faz cá como também para o que se faz lá fora. “O mercado português tem condições ótimas para testar as tecnologias e as soluções, porque não é nem grande nem pequeno e as situações que encontramos são facilmente geríveis”, disse o CEO da Efacec, Ângelo Ramalho, durante o debate que antecedeu a entrega do Prémio REN.

Exemplo disso, acrescentou, foi o Mobi. Ou seja, o sistema de mobilidade elétrica lançado ainda durante o governo de José Sócrates. Apesar de o considerar “um bocadinho adiantado no tempo”, Ângelo Ramalho diz que “tornou evidente que Portugal tem capacidade para projetos desta natureza, isto é, disruptivos, e que daqui possam ir depois para mercados com maior escala”. Outro exemplo disso é o sistema de gestão de consumos que o INESC desenvolveu (ver texto principal) que pode ser facilmente exportável, não só a tecnologia e o algoritmo já criados como depois o produto final.

Para o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, que encerrou o encontro, Portugal tem, de facto, as capacidades, mas é agora necessário que os investigadores e as universidades trabalhem mais com a indústria e as empresas e que estas estejam também dispostas a trabalhar com eles. O professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e diretor do INESC Tec, o polo de investigação da FEUP, João Peças Lopes, é de opinião de que já existem colaborações com a indústria e deu como exemplo uma parceria que tem com a Efacec há já 25 anos, outra com a REN que permitiu exportar inovação para Espanha, e ainda com outras como a EDP, com quem tem estado a testar as redes e contadores inteligentes e o armazenamento. Mas Manuel Heitor gostava de ver ainda mais colaborações que permitam que Portugal se destaque internacionalmente como exemplo na investigação e na qualidade académica.

Para o presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão, que também esteve presente na cerimónia, o problema já não é como destacar a qualidade académica, porque há alunos bastante requisitados lá fora. O desafio, disse, é manter esses recursos cá. “Há um enorme apetite internacional pelos nossos melhores recursos e é cada vez mais difícil para as nossas empresas integrarem e reterem esse talento”, comentou.

Por enquanto, isso aconteceu com os três vencedores deste ano do Prémio REN, que distinguiu as melhores teses de mestrado com um total de €22.500. Bruna Tavares, Rui Santos e José Costa, que desenvolveram e estudaram formas de aproveitar e incorporar as renováveis nas redes elétricas e nas casas, estão todos em empresas portuguesas ou com sede em Portugal. Bruna está a fazer investigação no INESC, José trabalha na New, uma subsidiária da EDP, e Rui Santos está na Microsoft Portugal, apesar de agora estar num projeto na Holanda.

O QUE VAI DAR QUE FALAR NA ENERGIA

RENOVÁVEIS

Já se ouve falar muito, mas continuaremos a falar de renováveis agora que os painéis solares estão mais baratos e haverá mais pessoas a instalá-los em casa e a produzir a energia que consomem. Isto é um desafio para a REN, que gere a rede, mas também para a EDP Distribuição e para os comercializadores de eletricidade.

REDES INTELIGENTES

Para incorporar a produção descentralizada, em parte por causa dos painéis solares instalados nas casas, os operadores das redes tiveram de dotar as suas infraestruturas de sensores e altas tecnologias que permitem saber o que se passa nessas redes e resolver problemas à distância. E agora essas redes até vão dizer quando precisam de manutenção.

CONTADORES INTELIGENTES

Já existem e permitem, por exemplo, fazer a leitura do consumo sem ir a casa, mas dos seis milhões de clientes domésticos que há em Portugal, só cerca de um milhão usa estes equipamentos e a maior parte precisa de melhorias. A EDP está já a fazer testes nesse sentido e quer que, até 2020, 60% dos contadores sejam inteligentes.

SISTEMAS DE CONTROLO EM CASA

Também já existem, mas ficarão muito mais avançados. Hoje dão informação, como quanto se está a gastar por hora, programam alertas se se ultrapassar um consumo ou permitem usar o telemóvel para o forno se ligar a determinada hora. Mas, em breve, conseguirão, sem programação humana, ligar os eletrodomésticos quando a energia está mais barata.

ARMAZENAGEM

É o que talvez mais revolucionará o sector nos próximos 10 anos. O objetivo é que com uma bateria, ou uma espécie de pilha, seja possível guardar a energia que se produziu nos painéis solares ou quando estava mais barata porque as eólicas estavam a produzir muito. As poupanças na conta podem ser grandes.

CARROS ELÉTRICOS

As baterias usadas nas casas vão ser, para já, as mesmas que se desenvolveram para os carros elétricos que, por sua vez, vão evoluir ainda mais em autonomia e ficar mais baratas. Permitirá baixar os preços dos carros e aparecerem criações novas, como o camião elétrico da Tesla.

Expresso, 25 de novembro de 2017

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